terça-feira, 15 de abril de 2008

O TIRO QUE SAIU PELA CULATRA!
Allison S. Ambrósio


Dizem por aí que a curiosidade mata. Nem sempre. Mas pode assustar. E como! Foi no sábado de manhã, no centro da cidade, onde eu procurava um cartãozinho para a Jacqueline. Não queria deixar seu aniversário passar em branco.
Gosto da língua inglesa. Acho sonora, suave e gostosa de falar. Sendo assim, saio lendo tudo o que consigo em inglês e que se coloque em minha frente. Nomes de lojas, bandas de rock, cartazes de shows, camisetas. Tento decifrar expressões idiomáticas, que são super interessantes e por aí vai. Até em meu próprio nome dei um jeito de encontrar uma expressão idiomática inglesa: All is on (está tudo em cima, ou, está tudo bem comigo!).
Ele vinha em sentido contrário. Gordo, feio, com óculos de grau do tipo fundo de garrafa. Diria tratar-se de uma pequena escapadela estética da mãe natureza (ok, todos são criaturas de Deus, embora alguns sejam mais feios que outros!). No começo não notei sua aparência, por estar concentrado, num daqueles lapsos de pensamento, no que estava escrito em sua camiseta que parecia um outdoor em função daquele “corpitcho”: I’m waiting for a girl like you*.
Com o susto que levei, ergui rapidamente os olhos a tempo de observá-lo, com um sorriso sem graça, de alguém que fora pego fazendo alguma travessura. Não falei, mas pensei imediatamente: “Tô Fora!”. Foi tudo em fração de segundos. Explodimos numa gostosa gargalhada no meio da rua. Ainda avancei umas duas quadras, rindo muito daquela piada pronta.
Tenho certeza que o plano do bonitão, ao colocar aquela camiseta, nem passava perto de uma possibilidade desastrosa dessas; um negão que sabia ler em inglês! Assim, a maioria dos planos que fazemos não considera as variáveis absolutamente possíveis de alguma coisa não dar certo.
Famoso jogador de futebol, Mané Garrincha se notabilizou por uma pergunta simples, inocente e sem malícia que fez, antes de um dos jogos da seleção brasileira. Depois de seu técnico mostrar à equipe sua estratégia de jogo, ao notar todos os movimentos fantásticos que lhe foi exigido, Garrincha perguntou: “mas o senhor já combinou com os adversários?”. Para fazer tudo o que o técnico queria, o jogador percebeu ser possível apenas se o time adversário ficasse plantado em campo, sem esboçar qualquer reação de defesa.
Colocar-se na posição do outro é um dos melhores exercícios que poderíamos fazer para evitar maiores constrangimentos. As coisas não são lineares, previsíveis e tranqüilas o tempo todo. Até um elogio que se pretende pode virar uma agressão. Uma conversa banal e irrelevante pode terminar em discussão e uma saída rapidinha para comprar um pão pode terminar em um boletim de ocorrência de uma delegacia da cidade.
O bom da vida é justamente essa aleatoriedade, esse formidável e desconhecido minuto seguinte. Nunca sabemos o que vem pela frente e é justamente isto que faz o nosso dia a dia emocionante. E quanto ao rapaz da camiseta? Continua esperando...


*tradução: “Estou esperando por uma garota parecida com você”. É ruim, hein?

quinta-feira, 10 de abril de 2008


JESUS ESTÁ MEXENDO!

Eu liderava uma comunidade cristã em Fortaleza, bairro Mucuripe. Betesda Volta da Jurema, na avenida Abolição, no Ceará. Após uma reunião bastante animada, depois de haver cumprimentado as pessoas que saíam do prédio, a professora Alessandra veio me dizer cheia de alegria: O Leozinho (meu filho, quatro anos de idade na época) fez uma oração hoje, lá na salinha das crianças, pedindo a Jesus para ser Senhor em sua vida!

Lembro-me de ficar emocionado com aquele testemunho, lembrando-me que fiz o mesmo aos seis aninhos de idade, dois a mais que ele, portanto. Foi inevitável pensar que os filhos vêm para superar seus pais, inclusive no tempo.

Ao chegar em casa, Jackie o prepara para dormir, como já de costume. Dentes escovados, pijama, beijo de boa-noite no pai que ainda está assistindo um dos intermináveis filmes do Charles Bronson (Desejo de Matar CLXXVII) e, finalmente, o pequeno diálogo:

- Leo, a professora disse que você entregou seu coraçãozinho a Jesus hoje, não foi?
- Foi sim, mamãe! - responde entusiasmado, o projeto de cristão.

Jacqueline abriu um sorriso satisfeito, pensando na decisão do filho que, dali a alguns meses ganharia uma irmazinha. Grávida de sete meses, habituara-se a colocar a pequena mão do menino sobre sua barriga, para sentir os movimentos da Julie, talvez praticando alguns passos de Street Dance! Afinal, são meus filhos, né? Não se contentam em ser comuns!

- E agora, Leo? Onde é que Jesus está morando agora? - Pergunta a mãe, antes da última oração do dia.
- Aqui! - O Leo pôs a mão sobre o peito, indicando seu pequeno coração. Ato contínuo, arregalou os olhos e gritou assustado para a mãe, depois de sentir os próprios batimentos cardíacos:

- Mãe! Jesus está mexendo! Jesus está mexendo!

POLITICAMENTE INCORRETO!
Allison da Silva Ambrósio

Estávamos em família, na sala de casa. Jackie, eu e os meninos nos preparávamos para mais um encontro do projeto CRISTO EM CASA, que consiste em uma leitura que fazemos de um dos provérbios do Rei Salomão na Biblia Sagrada.

A dinâmica é a seguinte: na terça feira, mais ou menos às sete e meia desligamos a TV, o rádio e os celurares e nos reunimos na sala. Abrimos no livro dos Provérbios e procuramos o capítulo correspondente ao dia em que estamos. Dia oito, Provérbios capítulo oito, etc. Todos lêem dois ou três versículos, inclusive a Camile que, aos seis anos de idade, já consegue certa desenvoltura na leitura.

Depois disso, cada um escolhe um versículo que se encaixe melhor com seu estado de espírito, que lhe tenha chamado a atenção ou que lhe salve logo de tal incumbência! No dia em questão estávamos lendo uma linda peça literária, chamada "O Banquete da Sabedoria". Nela, o rei descreve a sabedoria como uma pessoa que se prepara, arruma a casa, se perfuma e sai pela rua afora, buscando, convidando os homens tolos e sem juízo para virem se banquetear com ela.

Em dado momento, por não ser respondida ou sentir-se desprezada por eles, a sabedoria então afirma que rirá de todos os que forem atingidos pela calamidade, pelo infortúnio, por aquelas crises que ocorrem na vida e que seriam facilmente debeladas, caso a tivessem ouvido.

- É Deus que está falando isso? - perguntou a Julie, depois de sentir-se incomodada com a vingança fria e incompassiva da sabedoria.
- Não, minha filha, é a sabedoria! - respondo.
- Que sabedoriazinha chata, né? O sujeito já está mal e ela ainda quer espezinhar!

Já estava meio desconcertado com essa inferência, explicando que aquilo era apenas como uma peça literária, um poema no qual o autor coloca características humanas em uma virtude para proclamar sua importância, quando a Camile entra no debate:

- Mas, pai, na semana passada a gente aprendeu que não devíamos devolver com o mal as coisas más que as pessoas fizessem com a gente? Não é para fazer coisas boas, mesmo quando nos fizerem coisas más? Então essa sabedoria aí está muito errada!
- Mas é apenas uma forma que Salomão achou para mostrar como é bom buscar a sabedoria - tentei livrar a barra do milenarmente falecido.
- Mas esse rei aí está errado do mesmo jeito!

Nada mais cabendo no momento, levantei-me de onde estava e fui cumprimentar minha filha que, como a irmã, havia compreendido bem o princípio de o bem superar o mal. Fiquei apenas com dó do Salomão. Nem mesmo o homem considerado o mais sábio do mundo consegue dobrar um raciocínio rápido e descompromissado de uma mente infantil!

Para mim, ele pode até ser rei. Para elas, mesmo assim, ele está politicamente incorreto!
NO AMOR E NA GUERRA DA VIDA!
Allison da Silva Ambrósio

O que esperar de um garoto negro e franzino, pobre quase ao nível Biafra, número cinco na escala dos oito filhos oficiais do pai? Meu diferencial era a desenvoltura e o talento para música. Não conformado com uma situação socialmente frágil no contexto brasileiro, fui à luta.

Aprendi a ser independente quanto aos muitos negócios nos quais me meti. Depois de me tornar vendedor de sorvetes a dez centavos, pelas ruas de Santo André, em São Paulo aos seis anos de idade, todo o resto se tornaria fácil: engraxate, menor aprendiz, office-boy, escrevente auxiliar, vendedor de ilusões (também embarquei no barco da AM WAY!) até ter meu próprio negócio: uma empresa de cobrança. Logo faliu, pelo tanto que foi cobrada!

No amor, tentando tal sorte desde os nove anos (transcrevi para uma garota de sete algumas frases do Roberto CArlos: "Eu tenho tanto pra lhe falar..."; é meu primeiro registro mental sobre o assunto), depois de tantos foras que levei desenvolvi uma técnica que transcendeu as questões do coração.

Simples: quando eu me interessava por uma garota, geralmente muito além das expectativas que todos possuiam a meu respeito e, para não me frustrar muito com as respostas previsiveis, decidi raciocinar que o "não" provável eu já possuía. O "sim" insólito e incrível até para mim, depois de me emudecer de assombro inicialmente iria me deixar feliz por ter tentado.

Não me espezinhem além do necessário, querendo saber qual das respostas acima foram as mais recorrentes nas minhas investidas! Porém, observei que saía menos ferido de cada uma delas. Tive poucos relacionamentos para valer na vida, mas não me permiti ferir com o que não consegui.

"Quer namorar comigo?", "NÃO!", "grande coisa... Eu já sabia!". E assim tocava a vida, com alguma integridade emocional no meu peito pré-adolescente. Sabendo da possibilidade de não funiconar eu não me espantava. Sendo assim, não me frustrava, a ponto de lamentar a vida, a sorte, o amor, etc.

Quando era o contrário que ocorria, ou seja, a resposta era "sim", geralmente eu travava. Por não ter muito assunto ou por uma súbita crise de constrangimento que me tomava de assalto.

O realmente quero dizer nas entrelinhas dessas tentativas frustradas de um Dom Juan de Marco Jamaicano é que, invariavelmente, já entramos no ringue da vida derrotados, esperando o soar do gongo do fim da luta, para um assalto que mal começou!

Como a hiena do desenho animado, parecemos uma porta enferrujada, revolvendo-se em seus gonzos a dizer: "ó vida, ó dor, ó sofrimento!", quando poderíamos nos surpreender, apenas olhando nosso desafio sob outra motivação e perspectiva.

Foi numa música do Chico que eu ouvi que até o copo vazio está cheio... De ar! Li em outro lugar qualquer que o pessimista, ao ver meio copo d'água observa que o mesmo está meio vazio. O otimista vê o mesmo copo e, além de beber a água e matar a sede, observa que o mesmo estava MEIO CHEIO!

Vamos combinar então? Temos sempre duas maneiras de encarar um mesmo desafio. Por que já decidir a perda sem nem ao menos tentar vencer? Por que jogar a toalha que poderia muito bem ser balançada de felicidade no final, após a sua vitória? Quando a barriga gelar, as mãos suarem, o medo chegar sem ser convidado e as pernas tremerem, lembrem de mim e das minhas tentativas infantis de parecer adulto: Se não for funcionar, antecipe-se: "Grande coisa! Eu já sabia que poderia ter sido assim!"

Agora, se der certo, SURPREENDA-SE E COMEMORE! VALEU A TENTATIVA!
SE TEU HERÓI CAIR
Allison da Silva Ambrósio

O teu herói caiu
O teu irmão falhou
O amigo fugiu
A força te deixou...

Se a luta não cessar
E a dor continuar
Se em vão tentar vencer
Quase a cair...

Se o teu herói cair
Se o teu irmão falhar
Se o amigo fugir
E a força te deixar...

Lembra do Cristo
Que por ti se deu
E te espera crer
Pra revelar- te um céu...

Creia pois no Senhor
Que pode encher de amor
E firme assim, feliz serás...

Se teu herói cair...

sábado, 5 de abril de 2008

O AMOR
Allison S. Ambrósio

O amor, santo mistério
O amor não fica velho
Penetra e invade a alma
Suave calma
Celeste dádiva

O amor tem mil matizes
Profundas suas raízes
Penetra e regenera
Suporta e espera
Não se exaspera
O amor...

Ao nascer no dia o sol
O amor nasce também
Ao brilho da estrela no céu
O amor rebrilha além...

O amor tem mil matizes
Profundas suas raízes
Penetra e regenera
Suporta e es[era
Não se exaspera
O amor...
A ÚLTIMA UTOPIA

Cidadãos, já imaginaram o futuro? As ruas das cidades inundadas de luz, ramos verdes à soleira das portas, as nações irmãs, os homens justos, os velhinhos abençoando as crianças, o passado amando o presente, os pensadores em plena liberdade os crentes em plena igualdade, o céu por religião, Deus Sacerdote direto, a consciência humana transformada em altar, não mais ódios, a fraternidade entre a escola e a oficina, por penalidade e por recompensa a notoriedade, trabalho para todos, paz para todos, direito para todos, não mais sangue derramado, não mais guerras, as mães felizes!

Domar a matéria, eis o primeiro passo; realizar o ideal, eis o segundo. Reflitam sobre o que o progresso já fez. Outrora, as primeiras raças humanas viam com terror passar-lhes diante dos olhos a hidra que soprava sobre as águas, o dragão que vomitava fogo, o grifo, monstro do ar com asas de águia e garras de tigre; animais assustadores e superiores ao homem. Este, contudo, armou-lhes laços, os laços sagrados da inteligência, e acabou por dominar os monstros.

Dominamos a hidra, agora chama-se vapor; dominamos o dragão, agora chama-se locomotiva; estamos prestes a dominar o grifo, já o temos em nosso poder, agora chama-se balão. No dia em que essa obra digna de Prometeu estiver terminada, quando o homem tiver atrelado definitivamente à própria vontade a tríplice quimera da Antiguidade, a hidra, o dragão e o grifo, ele será senhor da água, do fogo e do ar, e será para o resto da criação dotada de alma o que os antigos deuses foram outrora para ele. Coragem e avante!

Cidadãos, para onde iremos? Para a ciência transformada em governo, para a força das coisas transformada na única força acessível a todos, para a lei natural recebendo sanção e penalidade em si mesma e promulgando-se pela evidência, para uma aurora de verdade que corresponde à aurora do dia. Caminhamos para a união dos povos, para a unidade do gênero humano. Chega de ficções e de parasitas. O real governado pela verdade, eis o nosso objetivo.

Parte do discurso de Enjolras, personagem do livro “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, pouco antes de morrer pela instalação da República Francesa.