QUEM VAI CUIDAR DO QUEBRA-MAR?
Allison S. Ambrósio
Quem vai cuidar do quebra-mar quando explodir?
Quando não agüentar, não mais conciliar
Se não se conformar, não mais persuadir
Quem vai cuidar do quebra-mar quando explodir?
E quem vai seguir o quebra-mar quando fugir
E não mais tolerar a onda a se formar
Ou quando se cansar de tanto mar ouvir
Quem vai cuidar do quebra-mar quando fugir?
Quem vai conter o quebra-mar quando sorrir?
Não mais se interessar em razões procurar
E por não explicar, até se divertir
Quem vai chorar a dor do quebra-mar quando sorrir?
quarta-feira, 12 de março de 2008
segunda-feira, 10 de março de 2008
TRAGÉDIA DA VIDA REAL
Allison da Silva Ambrósio
Depois de um dia quente e exaustivo de trabalho eu voltava para casa. Pude perceber, logo nos primeiros meses de minha nova moradia, que o bairro que escolhi é um dos bons e mais estratégicos da ilha de Florianópolis, Santa Catarina. A partir das facilidades, da proximidade da escola dos meninos, farmácias, supermercados e lazer, fiquei feliz com a decisão final que tomamos, eu e minha esposa, de nos mudar para lá.
Ao contrário do que nos haviam alertado, o povo catarinense se mostrou cordial e educado até mesmo nos detalhes. As faixas de pedestres nas ruas costumam ser observadas com respeito, o trânsito na maioria das vezes se apresenta calmo e, quando se sabe a hora certa, os carros transitam tranqüilos pelas pontes de acesso e saída da capital.
Quando viemos para Floripa, como é carinhosamente chamada pelos “manézinhos da ilha”, tínhamos no item segurança um dos principais fatores. O número de assassinatos no Estado é de quatro para cada cem mil habitantes. É o menor da nação que, por sua vez registra a média de vinte e três mortos por cada cem mil. Trafegar com os vidros do carro baixos para sentir a brisa era um deleite impraticável na cidade de onde viemos.
E assim, durante os onze primeiros meses da minha estada na cidade pensei ter descoberto um lugar, onde os poderes públicos funcionavam corretamente, as pessoas são pacientes e cordiais, contribuindo assim para a alta taxa de qualidade de vida deste quinhão da região sul. Recentemente foi divulgada a notícia de que Santa Catarina detêm os melhores índices de qualidade do ensino, além de ser o destino turístico número um em todo o Brasil.
Talvez, fosse até nisso que eu pensava ao voltar para casa naquele dia. Eram mais ou menos 18:00h. A avenida Almirante Lamego é uma das saídas em direção à ponte, por isso é um pouco congestionada nos horários de pico. Dirigi devagar o suficiente por ali, para notar uma cena esdrúxula: o latão de lixo de um dos requintados condomínios do bairro, emborcado sobre o que me pareciam pernas humanas.
Ao me aproximar e observar melhor, tive a certeza do que via. Havia um homem literalmente vestido com aquele latão, banhado dessa forma com os detritos fétidos que havia em seu interior. A julgar pela sua pasta executiva ao lado da lixeira, a qualidade do único sapato que lhe restava no pé e o tipo de roupa que vestia, este homem só deixava a todos os passantes a idéia de que havia surtado, perdido qualquer senso ou controle de suas faculdades mentais.
Estacionei meu carro na garagem do meu prédio e voltei até o lugar, após observar a chegada de uma rádio patrulha ao local. Alguém chamou a polícia, com o medo de aquele homem vir a tornar-se violento ou descontrolado. Na medida em que me aproximava novamente, eu o escutava gritar a todos que os queria longe dele, pelo menos uns cem metros. “Nem o governador eu quero aqui perto de mim!”, vociferava a todos, aquele senhor de aparentes sessenta e poucos anos.
Os policiais, ao contrário do que pensávamos inicialmente, apenas observavam de longe, interferindo eventualmente para facilitar o tráfego naquele ponto já tomado de curiosos – eu incluído. Trata-se de alguém severamente abalado, pensava com meus botões. Esse pensamento era compartilhado por todos, inclusive pela parente do homem, uma senhora gorda que procurava demovê-lo daquela situação.
De passos lentos, respiração difícil e um flagrante constrangimento no rosto, ela chegou a trazer um copo de água, provavelmente com açúcar, para tentar acalmá-lo e tirá-lo daquela situação vexatória. A cada investida da mulher igualmente idosa, a resposta do homem era comer daqueles restos de comida estragada, entre lamentos sobre a empresa que fizera a sua desgraça. “Você conhece a empresa tal? Foi ela que me colocou aqui!”, ele gritava, mergulhando novamente o rosto nos detritos.
Os soldados se comunicaram através de rádio, o que resultou na chegada de mais duas viaturas da polícia militar. Parecia relativamente simples o que precisava ser feito. Um homem claramente desequilibrado, de uma compleição absolutamente distante de parecer um Van Dame ou Rocky Balboa, o mais correto seria imobiliza-lo, impedindo-o de se ferir ou ferir outras pessoas ao redor, aguardando assim a ambulância que o levaria, pois o único destino plausível para ele era um hospital.
Enquanto ponderava sobre isso, ouvi ao longe o ruído da sirene de uma ambulância. Todos ao meu redor se alegraram aliviados. Mas, antes não tivessem vindo os para-médicos, pois seriam menos pessoas a assistirem o espetáculo de truculência e despreparo de homens públicos, cuja missão devia ser proteger e preservar a segurança dos cidadãos.
Num ato insano e descabido, ao sentir-se acuado pelos policiais, o homem começou a tentar acertar neles os restos da comida fétida que comia, dizendo que estava contaminada. Esse era todo o armamento que possuía para enfrentá-los. Num determinado momento, um policial jovem e bastante atlético, visivelmente irritado, desferiu-lhe um golpe que o fez cair com o rosto no cimento frio, na frente da farmácia, o lugar mais adequado ao tipo de socorro necessário àquela situação.
Uma vez que o homem fora derrubado, outros três policiais se aproximaram rapidamente e com tal ferocidade, que as pessoas presentes àquele espetáculo de horror gritaram, mais por desespero que por revolta, exigindo um tratamento no mínimo mais humano àquele homem. O que não aconteceu. Mesmo cruelmente algemado – seus braços foram puxados para trás com a clara intenção de produzir dor – e dominado pelos policiais, o mesmo soldado que o derrubou se conservava debruçado sobre a sua cabeça, enquanto pressionava o seu pescoço em um golpe chamado de “mata-leão”.
Vendo aquilo tudo, fazendo coro timidamente com alguns poucos que ousavam questionar os policiais, me senti um lixo pior que o que fora comido pelo homem, que agora se tornava três vezes vitima: vitima de um negócio mal feito, do descontrole experimentado em uma via publica e, o pior, vitima de pessoas que tinham por obrigação zelar por sua integridade.
Na mesma proporção da minha raiva, da minha indignação com aquela atitude troglodita de homens sem preparo adequado, surgiu em meu coração o medo de me envolver. Sim, de repente, me dei conta de toda a covardia que envolve até as pessoas que querem proclamar justiça. Pensei nos meus filhos e na possibilidade de os soldados se voltarem contra mim. Depois de pensar nisso, percebi que era geral o medo. Todos queriam impedir, porém, todos tinham algo a perder se insistissem na revolta.
Um senhor de idade avançada demonstrou mais coragem do que eu, quando foi censurar frontalmente a atitude do soldado infrator. “Vá até a delegacia e preste queixa, então!”, vociferou o soldado. “Vou sim!”, respondeu o ancião. E eu ali, paralisado de medo, enquanto minha mente desenvolvia os discursos mais inflamados e ameaçadores para serem ditos àqueles homens equivocados em sua profissão.
A viatura partir em alta velocidade. As pessoas se dispersaram tão rapidamente quanto à ambulância que fora acionada sem ser usada. A rua se esvaziou novamente, ficando apenas aquela mulher, parente da vítima, além de todo o lixo espalhado. Duas coisas me chamaram a atenção naquele quadro. O homem, que pensava estar ruim a sua situação, descobriu que até o que é ruim pode ser piorado. O lixo fétido, que jazia espalhado pela calcada nada mais era do que uma síntese infeliz de tudo o que os homens, em vida, ainda podem se transformar.
Lembrei de uma canção antiga do Silvio Brito: “pára o mundo, que eu quero descer!”.
Allison da Silva Ambrósio
Depois de um dia quente e exaustivo de trabalho eu voltava para casa. Pude perceber, logo nos primeiros meses de minha nova moradia, que o bairro que escolhi é um dos bons e mais estratégicos da ilha de Florianópolis, Santa Catarina. A partir das facilidades, da proximidade da escola dos meninos, farmácias, supermercados e lazer, fiquei feliz com a decisão final que tomamos, eu e minha esposa, de nos mudar para lá.
Ao contrário do que nos haviam alertado, o povo catarinense se mostrou cordial e educado até mesmo nos detalhes. As faixas de pedestres nas ruas costumam ser observadas com respeito, o trânsito na maioria das vezes se apresenta calmo e, quando se sabe a hora certa, os carros transitam tranqüilos pelas pontes de acesso e saída da capital.
Quando viemos para Floripa, como é carinhosamente chamada pelos “manézinhos da ilha”, tínhamos no item segurança um dos principais fatores. O número de assassinatos no Estado é de quatro para cada cem mil habitantes. É o menor da nação que, por sua vez registra a média de vinte e três mortos por cada cem mil. Trafegar com os vidros do carro baixos para sentir a brisa era um deleite impraticável na cidade de onde viemos.
E assim, durante os onze primeiros meses da minha estada na cidade pensei ter descoberto um lugar, onde os poderes públicos funcionavam corretamente, as pessoas são pacientes e cordiais, contribuindo assim para a alta taxa de qualidade de vida deste quinhão da região sul. Recentemente foi divulgada a notícia de que Santa Catarina detêm os melhores índices de qualidade do ensino, além de ser o destino turístico número um em todo o Brasil.
Talvez, fosse até nisso que eu pensava ao voltar para casa naquele dia. Eram mais ou menos 18:00h. A avenida Almirante Lamego é uma das saídas em direção à ponte, por isso é um pouco congestionada nos horários de pico. Dirigi devagar o suficiente por ali, para notar uma cena esdrúxula: o latão de lixo de um dos requintados condomínios do bairro, emborcado sobre o que me pareciam pernas humanas.
Ao me aproximar e observar melhor, tive a certeza do que via. Havia um homem literalmente vestido com aquele latão, banhado dessa forma com os detritos fétidos que havia em seu interior. A julgar pela sua pasta executiva ao lado da lixeira, a qualidade do único sapato que lhe restava no pé e o tipo de roupa que vestia, este homem só deixava a todos os passantes a idéia de que havia surtado, perdido qualquer senso ou controle de suas faculdades mentais.
Estacionei meu carro na garagem do meu prédio e voltei até o lugar, após observar a chegada de uma rádio patrulha ao local. Alguém chamou a polícia, com o medo de aquele homem vir a tornar-se violento ou descontrolado. Na medida em que me aproximava novamente, eu o escutava gritar a todos que os queria longe dele, pelo menos uns cem metros. “Nem o governador eu quero aqui perto de mim!”, vociferava a todos, aquele senhor de aparentes sessenta e poucos anos.
Os policiais, ao contrário do que pensávamos inicialmente, apenas observavam de longe, interferindo eventualmente para facilitar o tráfego naquele ponto já tomado de curiosos – eu incluído. Trata-se de alguém severamente abalado, pensava com meus botões. Esse pensamento era compartilhado por todos, inclusive pela parente do homem, uma senhora gorda que procurava demovê-lo daquela situação.
De passos lentos, respiração difícil e um flagrante constrangimento no rosto, ela chegou a trazer um copo de água, provavelmente com açúcar, para tentar acalmá-lo e tirá-lo daquela situação vexatória. A cada investida da mulher igualmente idosa, a resposta do homem era comer daqueles restos de comida estragada, entre lamentos sobre a empresa que fizera a sua desgraça. “Você conhece a empresa tal? Foi ela que me colocou aqui!”, ele gritava, mergulhando novamente o rosto nos detritos.
Os soldados se comunicaram através de rádio, o que resultou na chegada de mais duas viaturas da polícia militar. Parecia relativamente simples o que precisava ser feito. Um homem claramente desequilibrado, de uma compleição absolutamente distante de parecer um Van Dame ou Rocky Balboa, o mais correto seria imobiliza-lo, impedindo-o de se ferir ou ferir outras pessoas ao redor, aguardando assim a ambulância que o levaria, pois o único destino plausível para ele era um hospital.
Enquanto ponderava sobre isso, ouvi ao longe o ruído da sirene de uma ambulância. Todos ao meu redor se alegraram aliviados. Mas, antes não tivessem vindo os para-médicos, pois seriam menos pessoas a assistirem o espetáculo de truculência e despreparo de homens públicos, cuja missão devia ser proteger e preservar a segurança dos cidadãos.
Num ato insano e descabido, ao sentir-se acuado pelos policiais, o homem começou a tentar acertar neles os restos da comida fétida que comia, dizendo que estava contaminada. Esse era todo o armamento que possuía para enfrentá-los. Num determinado momento, um policial jovem e bastante atlético, visivelmente irritado, desferiu-lhe um golpe que o fez cair com o rosto no cimento frio, na frente da farmácia, o lugar mais adequado ao tipo de socorro necessário àquela situação.
Uma vez que o homem fora derrubado, outros três policiais se aproximaram rapidamente e com tal ferocidade, que as pessoas presentes àquele espetáculo de horror gritaram, mais por desespero que por revolta, exigindo um tratamento no mínimo mais humano àquele homem. O que não aconteceu. Mesmo cruelmente algemado – seus braços foram puxados para trás com a clara intenção de produzir dor – e dominado pelos policiais, o mesmo soldado que o derrubou se conservava debruçado sobre a sua cabeça, enquanto pressionava o seu pescoço em um golpe chamado de “mata-leão”.
Vendo aquilo tudo, fazendo coro timidamente com alguns poucos que ousavam questionar os policiais, me senti um lixo pior que o que fora comido pelo homem, que agora se tornava três vezes vitima: vitima de um negócio mal feito, do descontrole experimentado em uma via publica e, o pior, vitima de pessoas que tinham por obrigação zelar por sua integridade.
Na mesma proporção da minha raiva, da minha indignação com aquela atitude troglodita de homens sem preparo adequado, surgiu em meu coração o medo de me envolver. Sim, de repente, me dei conta de toda a covardia que envolve até as pessoas que querem proclamar justiça. Pensei nos meus filhos e na possibilidade de os soldados se voltarem contra mim. Depois de pensar nisso, percebi que era geral o medo. Todos queriam impedir, porém, todos tinham algo a perder se insistissem na revolta.
Um senhor de idade avançada demonstrou mais coragem do que eu, quando foi censurar frontalmente a atitude do soldado infrator. “Vá até a delegacia e preste queixa, então!”, vociferou o soldado. “Vou sim!”, respondeu o ancião. E eu ali, paralisado de medo, enquanto minha mente desenvolvia os discursos mais inflamados e ameaçadores para serem ditos àqueles homens equivocados em sua profissão.
A viatura partir em alta velocidade. As pessoas se dispersaram tão rapidamente quanto à ambulância que fora acionada sem ser usada. A rua se esvaziou novamente, ficando apenas aquela mulher, parente da vítima, além de todo o lixo espalhado. Duas coisas me chamaram a atenção naquele quadro. O homem, que pensava estar ruim a sua situação, descobriu que até o que é ruim pode ser piorado. O lixo fétido, que jazia espalhado pela calcada nada mais era do que uma síntese infeliz de tudo o que os homens, em vida, ainda podem se transformar.
Lembrei de uma canção antiga do Silvio Brito: “pára o mundo, que eu quero descer!”.
Para os que não sabem ainda, Taguatinga é uma Cidade Satélite de Brasília. O Plano Piloto compreende o espaço entre as Asas Sul e Norte da cidade, construída em forma de avião. Daí a razão de as cidades circunvizinhas, ou os super bairros serem chamados de Cidades Satélites, tais como Gama, Sobradinho, Núcleo Bandeirante, Guará, etc. E ultimamente, o que mais tem surgido em Brasília é Cidade Satélite. Haja espaço!
TAGUATINGA PLANO PILOTO
Allison da Silva Ambrósio
O sonho de qualquer chefe de família é o de comprar a casa própria. Mansão ou quarto e sala, o importante é ter escritura e matrícula. Acho que esse sempre foi o desejo do meu pai. Tanto, que comprou a nossa casa em Taguatinga Norte, setor O. Era de longe o que havia de mais distante do Plano Piloto àquela época. Mas era próprio. Quase.
Que importava se eu precisava viajar quarenta e dois quilômetros todos os dias pra chegar ao trabalho? O pai estava feliz com sua casa própria. Quer dizer, com algumas “poucas” prestações a pagar, pelo BNH. Não dava pra voltar na hora do almoço. Quando saíamos pela manhã, só voltaríamos tarde da noite, após o período das aulas.
As casas eram tão pequenas no setor “O”, que o bairro foi apelidado carinhosamente como “Vila do Cachorro Sentado”, já que os pobres caninos de lá não conseguiam espaço suficiente para se deitarem para dormir na sala. Mas tínhamos três quartos. Imagine...
Foi por isso que, logo após começar a trabalhar em um famoso escritório de advocacia, precisei comprar uma boa marmita. Nas andanças de office-boy não teria problema para encontrar. Foi nas lojas americanas, no setor comercial sul. Enorme, precisei observar bem, antes de comprar. “Pega uns dois quilos, com certeza”, pensei. Comprei.
Minha mãe precisava levantar bem cedinho para preparar minha comida. O cardápio era tradicional. Quarenta e cinco por cento de feijão, mesma quantidade de arroz. O dízimo do espaço era preenchido por um ovo frito bem espalhado pela frigideira, para dar um apuro estético à superfície da marmita. Sempre a aconselhava fazer o feijão com bastante caldo.
Para não me atrasar, não poderia passar das 07h15min para sair do ponto de ônibus. Religioso, o carro Taguatinga - Plano Piloto passava pela gente naquela costumeira má vontade de atender aos menos favorecidos. Tinha a impressão de que, se não subisse logo no coletivo, eu ainda iria passar muita vergonha. Parecia até premonição.
Seis e meia da manhã. Levanto depressa, tomo banho e como um pãozinho economizado da noite anterior. Sinto o perfumado tempero do feijão da mãe, que já acomodou minha marmita em um saco plástico das Casas da Banha. Sete horas. Saio de casa feliz da vida. Apesar de todo o sufoco, sempre gostei das primeiras horas da manhã. São dez minutos até a parada. Não podia correr riscos desnecessários.
E lá vem ele. O motorista impaciente, que parecia esquecer de que endereço saiu para pegar o ônibus. Ainda tinha de acordar antes de mim. Não entendia por que tanta truculência. Entrei rapidamente e logo procurei os primeiros lugares. Tão importante quanto viajar sentado era conseguir sair depois que enchia. Preservando a integridade da marmita, é claro.
A viagem sempre era tranqüila no inicio. A coisa pegava um pouco somente quando chegávamos à Ceilândia, cidade-satélite que, desde cedo, parecia vocacionada à violência. Mas nunca àquela hora. É sempre assim: noventa e nove por cento das pessoas de uma cidade são trabalhadores honestos, cumpridores de seus deveres. Mas, é necessário somente um por cento de gente sem-vergonha, de marginal, de bêbados para que todo mundo seja tachado de vagabundo. Na Ceilândia tem muito trabalhador. E como tem! E todos trabalham no mesmo horário. E pegam o mesmo ônibus. O meu.
Vencida essa etapa, era hora de enfrentar o trânsito da estrada-parque Taguatinga, ponto de ligação com o Plano Piloto. Passávamos pela entrada do Guará, setor de mansões Park-Way, setor de Indústria e Abastecimento. Após intermináveis paradas ali, enfrentávamos a saída sul, que dava para o Núcleo Bandeirante, setor gráfico, palácio da justiça e eixo monumental. Ao dobrar à direita na avenida W-3 sul, eu descia no primeiro ponto. Setor Comercial Sul. Edifício Presidente, sexto andar.
Todo santo dia, o mesmo ritual. A mesma lotação, os mesmos rostos e os mesmos cheiros. Inclusive o da marmita. Em cardápio que está ganhando não se mexe. Pelo menos voluntariamente.
Estava viajando como de costume numa daquelas manhãs. Já havíamos passado da Ceilândia, quase chegando à entrada do Guará. O coletivo foi diminuindo, diminuindo até parar no acostamento. O que mais aterroriza o trabalhador brasileiro é tomar um ônibus que resolve quebrar bem longe do seu destino. Não adiantou minha vantagem em subir antes de encher.
O pior de um ônibus quebrado é o próximo que chega! Se o primeiro já vem lotado, imagine como ficará o segundo? E ali todos estavam atrasados, desejosos de entrar em um espaço improvável, de tão compactado que estava pelos solavancos e chacoalhadas. Começaria assim um desagravo à lei da física. Dois corpos conseguem ocupar o mesmo lugar no espaço. Pelo menos dentro do Taguatinga – Plano Piloto II!
Tudo o que consegui foi um pequeno espaço para pôr o pé esquerdo no primeiro degrau. Todo resto estava tomado de pessoas que se acotovelavam, tentando uma melhor posição. Sorte eu ser canhoto, pois somente com a mão esquerda também foi que encontrei algo em que me segurar dentro do ônibus. Se o motorista do primeiro era truculento, acho que aprendeu com o motorista do segundo que, de quebra tentava observar o mesmo tempo da viagem anterior.
A cada aumento na aceleração meu coração acelerava também. Era como se ele nos culpasse pelo mau estado de conservação daqueles veículos. Não havia ninguém para explicar que éramos as maiores vitimas de tudo aquilo. O Guará está chegando... Uma senhora gorda resolveu melhorar sua posição no grid. E tome espalhar gente pela minúscula porta do coletivo. As pontas dos meus dedos estavam rosadas, devido ao sangue que rareava ali por causa da pressão. A próxima parada estava chegando...
Tentei encurvar ao máximo o meu corpo para trás, numa tentativa desesperada de conseguir um contrapeso à freada que viria logo a seguir. A mão se encontrava dormente de tanta força que lhe era exigida. O motorista começou a domar a fera... Outra multidão esperava para entrar – os que perderam o primeiro e os costumeiros do segundo. O homem meteu o pé no freio, como se quisesse reproduzir uma cena dos velozes e furiosos, desafio em Tóquio!
Foi o momento da minha marmita se revelar ao mundo. Por mais força que empreendi para me manter no ônibus, a pressão foi grande demais para alguém apoiado apenas com um pé, enquanto o outro descrevia a postura do National Kid, em seu melhor desempenho. Só que, ao invés de uma pistola de luz, minha mão direita segurava a marmita medonha que eu comprei nas lojas Americanas. Com a freada, senti meus dedos se abrirem com a facilidade de uma represa que rompe a barreira.
Por um momento me senti o super homem, voando na direção de todo o cascalho que antecedia a parada do ônibus. Foi uma aterrisagem de barriga digna das reprises do Fantástico. Um verdadeiro Show da Vida. Minha marmita se abriu, sociabilizando o feijão com muito caldo que, apesar de espargido sobre os pobres trabalhadores, não perdeu seu aroma inconfundível. O arroz já tinha deixado o ninho muito antes, indo parar espalhado nas plantas atrás da parada.
O ovo finalmente encontrou sua vocação para transporte alienígena. Saiu voando à minha revelia, em direção à árvore mais próxima. Ralei a barriga, os cotovelos, as coxas e algumas falanges das mãos, enquanto percebia o êxtase da audiência a me ovacionar pelo show! “Vai, idiota! Pegue carona outra vez!” e coisas do gênero que se faziam ouvir tanto dentro como fora do coletivo. E aquele almoço estava prometendo tanto...
O sonho de qualquer chefe de família é o de comprar a casa própria. Mansão ou quarto e sala, o importante é ter escritura e matrícula. Acho que esse sempre foi o desejo do meu pai. Tanto, que comprou a nossa casa em Taguatinga Norte, setor O. Era de longe o que havia de mais distante do Plano Piloto àquela época. Mas era próprio. Quase.
Que importava se eu precisava viajar quarenta e dois quilômetros todos os dias pra chegar ao trabalho? O pai estava feliz com sua casa própria. Quer dizer, com algumas “poucas” prestações a pagar, pelo BNH. Não dava pra voltar na hora do almoço. Quando saíamos pela manhã, só voltaríamos tarde da noite, após o período das aulas.
As casas eram tão pequenas no setor “O”, que o bairro foi apelidado carinhosamente como “Vila do Cachorro Sentado”, já que os pobres caninos de lá não conseguiam espaço suficiente para se deitarem para dormir na sala. Mas tínhamos três quartos. Imagine...
Foi por isso que, logo após começar a trabalhar em um famoso escritório de advocacia, precisei comprar uma boa marmita. Nas andanças de office-boy não teria problema para encontrar. Foi nas lojas americanas, no setor comercial sul. Enorme, precisei observar bem, antes de comprar. “Pega uns dois quilos, com certeza”, pensei. Comprei.
Minha mãe precisava levantar bem cedinho para preparar minha comida. O cardápio era tradicional. Quarenta e cinco por cento de feijão, mesma quantidade de arroz. O dízimo do espaço era preenchido por um ovo frito bem espalhado pela frigideira, para dar um apuro estético à superfície da marmita. Sempre a aconselhava fazer o feijão com bastante caldo.
Para não me atrasar, não poderia passar das 07h15min para sair do ponto de ônibus. Religioso, o carro Taguatinga - Plano Piloto passava pela gente naquela costumeira má vontade de atender aos menos favorecidos. Tinha a impressão de que, se não subisse logo no coletivo, eu ainda iria passar muita vergonha. Parecia até premonição.
Seis e meia da manhã. Levanto depressa, tomo banho e como um pãozinho economizado da noite anterior. Sinto o perfumado tempero do feijão da mãe, que já acomodou minha marmita em um saco plástico das Casas da Banha. Sete horas. Saio de casa feliz da vida. Apesar de todo o sufoco, sempre gostei das primeiras horas da manhã. São dez minutos até a parada. Não podia correr riscos desnecessários.
E lá vem ele. O motorista impaciente, que parecia esquecer de que endereço saiu para pegar o ônibus. Ainda tinha de acordar antes de mim. Não entendia por que tanta truculência. Entrei rapidamente e logo procurei os primeiros lugares. Tão importante quanto viajar sentado era conseguir sair depois que enchia. Preservando a integridade da marmita, é claro.
A viagem sempre era tranqüila no inicio. A coisa pegava um pouco somente quando chegávamos à Ceilândia, cidade-satélite que, desde cedo, parecia vocacionada à violência. Mas nunca àquela hora. É sempre assim: noventa e nove por cento das pessoas de uma cidade são trabalhadores honestos, cumpridores de seus deveres. Mas, é necessário somente um por cento de gente sem-vergonha, de marginal, de bêbados para que todo mundo seja tachado de vagabundo. Na Ceilândia tem muito trabalhador. E como tem! E todos trabalham no mesmo horário. E pegam o mesmo ônibus. O meu.
Vencida essa etapa, era hora de enfrentar o trânsito da estrada-parque Taguatinga, ponto de ligação com o Plano Piloto. Passávamos pela entrada do Guará, setor de mansões Park-Way, setor de Indústria e Abastecimento. Após intermináveis paradas ali, enfrentávamos a saída sul, que dava para o Núcleo Bandeirante, setor gráfico, palácio da justiça e eixo monumental. Ao dobrar à direita na avenida W-3 sul, eu descia no primeiro ponto. Setor Comercial Sul. Edifício Presidente, sexto andar.
Todo santo dia, o mesmo ritual. A mesma lotação, os mesmos rostos e os mesmos cheiros. Inclusive o da marmita. Em cardápio que está ganhando não se mexe. Pelo menos voluntariamente.
Estava viajando como de costume numa daquelas manhãs. Já havíamos passado da Ceilândia, quase chegando à entrada do Guará. O coletivo foi diminuindo, diminuindo até parar no acostamento. O que mais aterroriza o trabalhador brasileiro é tomar um ônibus que resolve quebrar bem longe do seu destino. Não adiantou minha vantagem em subir antes de encher.
O pior de um ônibus quebrado é o próximo que chega! Se o primeiro já vem lotado, imagine como ficará o segundo? E ali todos estavam atrasados, desejosos de entrar em um espaço improvável, de tão compactado que estava pelos solavancos e chacoalhadas. Começaria assim um desagravo à lei da física. Dois corpos conseguem ocupar o mesmo lugar no espaço. Pelo menos dentro do Taguatinga – Plano Piloto II!
Tudo o que consegui foi um pequeno espaço para pôr o pé esquerdo no primeiro degrau. Todo resto estava tomado de pessoas que se acotovelavam, tentando uma melhor posição. Sorte eu ser canhoto, pois somente com a mão esquerda também foi que encontrei algo em que me segurar dentro do ônibus. Se o motorista do primeiro era truculento, acho que aprendeu com o motorista do segundo que, de quebra tentava observar o mesmo tempo da viagem anterior.
A cada aumento na aceleração meu coração acelerava também. Era como se ele nos culpasse pelo mau estado de conservação daqueles veículos. Não havia ninguém para explicar que éramos as maiores vitimas de tudo aquilo. O Guará está chegando... Uma senhora gorda resolveu melhorar sua posição no grid. E tome espalhar gente pela minúscula porta do coletivo. As pontas dos meus dedos estavam rosadas, devido ao sangue que rareava ali por causa da pressão. A próxima parada estava chegando...
Tentei encurvar ao máximo o meu corpo para trás, numa tentativa desesperada de conseguir um contrapeso à freada que viria logo a seguir. A mão se encontrava dormente de tanta força que lhe era exigida. O motorista começou a domar a fera... Outra multidão esperava para entrar – os que perderam o primeiro e os costumeiros do segundo. O homem meteu o pé no freio, como se quisesse reproduzir uma cena dos velozes e furiosos, desafio em Tóquio!
Foi o momento da minha marmita se revelar ao mundo. Por mais força que empreendi para me manter no ônibus, a pressão foi grande demais para alguém apoiado apenas com um pé, enquanto o outro descrevia a postura do National Kid, em seu melhor desempenho. Só que, ao invés de uma pistola de luz, minha mão direita segurava a marmita medonha que eu comprei nas lojas Americanas. Com a freada, senti meus dedos se abrirem com a facilidade de uma represa que rompe a barreira.
Por um momento me senti o super homem, voando na direção de todo o cascalho que antecedia a parada do ônibus. Foi uma aterrisagem de barriga digna das reprises do Fantástico. Um verdadeiro Show da Vida. Minha marmita se abriu, sociabilizando o feijão com muito caldo que, apesar de espargido sobre os pobres trabalhadores, não perdeu seu aroma inconfundível. O arroz já tinha deixado o ninho muito antes, indo parar espalhado nas plantas atrás da parada.
O ovo finalmente encontrou sua vocação para transporte alienígena. Saiu voando à minha revelia, em direção à árvore mais próxima. Ralei a barriga, os cotovelos, as coxas e algumas falanges das mãos, enquanto percebia o êxtase da audiência a me ovacionar pelo show! “Vai, idiota! Pegue carona outra vez!” e coisas do gênero que se faziam ouvir tanto dentro como fora do coletivo. E aquele almoço estava prometendo tanto...
domingo, 9 de março de 2008
11 de Julho de 2007, Vinte anos depois...
Para Jackie Kauffman, meu grande e precioso amor. . .
Quando a gente quis, eu tinha pouco mais de vinte anos
Decisão feliz, tantos projetos e com tantos planos
Nada impediria o nosso sonho, nada nos faria recuar
Mesmo o apartamento tão minúsculo que a gente foi morar
Começou então uma louca e mágica jornada
Quanta emoção a gente ajuntou pela estrada
O primeiro carro que a gente comprou, a primeira briga que a gente brigou
Os primeiros gestos de perdão que nem me lembro quem iniciou
E assim o tempo foi passando e nos tangendo pela estrada
Rindo de nós mesmos ou gemendo por alguma coisa errada
Quantas vezes a gente se amou, noutras tantas que se perdoou
E, se percebendo indispensável, continuamos a jornada
Hoje, vinte anos é somente o tempo que estamos juntos
Mais bonitos, bem mais conscientes, mais charmosos, mais adultos
Três lindos motivos para celebrar, entendendo a força desse nosso lar
Celebrando diante dos céus a estirpe desse nosso amor
Amor é mais fácil de sentir quando a razão
Anda par e passo com o coração
Não nos deixa parar nem nos deixa correr
Amor, pelos erros que eu cometi, peço perdão
Pelo amor que cultivamos, minha oração
Prometo ainda mais te amar e proteger
Para Jackie Kauffman, meu grande e precioso amor. . .
Quando a gente quis, eu tinha pouco mais de vinte anos
Decisão feliz, tantos projetos e com tantos planos
Nada impediria o nosso sonho, nada nos faria recuar
Mesmo o apartamento tão minúsculo que a gente foi morar
Começou então uma louca e mágica jornada
Quanta emoção a gente ajuntou pela estrada
O primeiro carro que a gente comprou, a primeira briga que a gente brigou
Os primeiros gestos de perdão que nem me lembro quem iniciou
E assim o tempo foi passando e nos tangendo pela estrada
Rindo de nós mesmos ou gemendo por alguma coisa errada
Quantas vezes a gente se amou, noutras tantas que se perdoou
E, se percebendo indispensável, continuamos a jornada
Hoje, vinte anos é somente o tempo que estamos juntos
Mais bonitos, bem mais conscientes, mais charmosos, mais adultos
Três lindos motivos para celebrar, entendendo a força desse nosso lar
Celebrando diante dos céus a estirpe desse nosso amor
Amor é mais fácil de sentir quando a razão
Anda par e passo com o coração
Não nos deixa parar nem nos deixa correr
Amor, pelos erros que eu cometi, peço perdão
Pelo amor que cultivamos, minha oração
Prometo ainda mais te amar e proteger
O SALVADOR DO MUNDO
Allison da Silva Ambrósio
Não raro, sinto em meu coração um desejo inexplicável de sair solucionando os problemas de todas as pessoas ao meu redor. Imagino-me perguntando a um: “quanto você está devendo?”, e a outro: “você já falou para ela o quanto a ama? É só isso que ela está esperando de você”.
Lembro-me de tantas vezes que desejei, quando em um velório, tocar suavemente as gélidas mãos do defunto, esperando fluir de mim uma carga extraordinária de poder e sopro de vida. Afora algumas velhinhas que em meus devaneios não suportariam tal visão, o resultado seria fantástico. Para o Reino de Deus, é claro! Ok: sobraria alguma pequena glória para mim também.
Mas, por que essa sanha de tornar-me o salvador do mundo? Por que eu, inclusive? Essa mania perversa de querer consertar as coisas e pessoas ao meu redor, tendo sempre a última palavra e a última sugestão sobre tudo. Essa forma parcial de querer ver resolvidas as coisas sempre a meu favor. Essa impaciência em ter que escutar os argumentos do outro e, pior de tudo, quando tenho de admitir que são melhores que os meus.
Por que ser salvador do mundo, se nem mesmo meu mundo eu consigo organizar direito? De onde surge esse desejo de, como diz o sertanejo nordestino, “dar pitaco” na vida alheia, me ofendendo, inclusive, quando minhas sábias ponderações não são recebidas assim, com ações de graças?
Por que ser salvador do mundo, se encontro o meu próprio mundo sistematicamente burlado por minha visão míope da vida. Se meus desejos aflorados tendem a querer suplantar minha razão, fazendo-me vitima de meus próprios instintos. Por que eu? Tal qual o personagem de Robert Duval, no filme “O Apóstolo”, quero entrar no primeiro rio que encontrar e, com uma pequena cuia, me auto-consagrar apóstolo, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ainda que essas três pessoas santas não fossem sequer convidadas para o ato.
Talvez, por uma necessidade de aceitação. A melhor forma de se tornar necessário é tendo o que doar, com o que contribuir. Principalmente em um mundo utilitário, como se tornou o nosso, quem estiver disposto a dar de si mesmo e, melhor ainda, daquilo que tem granjeado ao longo do tempo, com certeza corre o sério risco de ser aceito.
Em busca de aceitação, sou capaz de dizer sim, mesmo que todo o resto do meu corpo esteja gritando não. Para ouvir um pequeno elogio, sou capaz de me expor até o limite do ridículo, se necessário. Salvador do mundo é apreciado por todos. Uma unanimidade. Que seria de Gottan City sem Batman e Robin? E do planeta diário sem o Super Homem? Até o ranzinza do JJ Jamenson, apesar da ira contra o Homem Aranha concorda que a cidade precisa de um super herói.
Mas, quão bom seria se eu fosse apenas eu mesmo. Suportasse me olhar no espelho, contentando-me com a visão. Esse eu autêntico, jamais escondido sob qualquer manto, seja de pureza ou de perversão. Esse eu menino, medroso, inseguro que, apesar de mim, ainda consegue se perceber puro.
Quão bom seria se eu não acreditasse nesse estereótipo criado sobre o meu chassi, que me exige determinado comportamento, ou alguma ação adequada ao meu papel social. Que bom seria ser somente aquilo que posso perceber na solidão da busca que inicio para dentro de mim mesmo.
Por que ser salvador do mundo, se não consigo salvar a mim mesmo? Salvador do meu mundo, talvez? O grande libertador da minha alma sensual e perigosa? A grossa mão que me agarra pelo braço, no meio das ondas famintas da existência, lançando-me como uma folha outonal em direção à areia? Que bom se eu conseguisse ser, tão somente, o salvador do meu mundo...
Salvador de mim mesmo.
Allison da Silva Ambrósio
Não raro, sinto em meu coração um desejo inexplicável de sair solucionando os problemas de todas as pessoas ao meu redor. Imagino-me perguntando a um: “quanto você está devendo?”, e a outro: “você já falou para ela o quanto a ama? É só isso que ela está esperando de você”.
Lembro-me de tantas vezes que desejei, quando em um velório, tocar suavemente as gélidas mãos do defunto, esperando fluir de mim uma carga extraordinária de poder e sopro de vida. Afora algumas velhinhas que em meus devaneios não suportariam tal visão, o resultado seria fantástico. Para o Reino de Deus, é claro! Ok: sobraria alguma pequena glória para mim também.
Mas, por que essa sanha de tornar-me o salvador do mundo? Por que eu, inclusive? Essa mania perversa de querer consertar as coisas e pessoas ao meu redor, tendo sempre a última palavra e a última sugestão sobre tudo. Essa forma parcial de querer ver resolvidas as coisas sempre a meu favor. Essa impaciência em ter que escutar os argumentos do outro e, pior de tudo, quando tenho de admitir que são melhores que os meus.
Por que ser salvador do mundo, se nem mesmo meu mundo eu consigo organizar direito? De onde surge esse desejo de, como diz o sertanejo nordestino, “dar pitaco” na vida alheia, me ofendendo, inclusive, quando minhas sábias ponderações não são recebidas assim, com ações de graças?
Por que ser salvador do mundo, se encontro o meu próprio mundo sistematicamente burlado por minha visão míope da vida. Se meus desejos aflorados tendem a querer suplantar minha razão, fazendo-me vitima de meus próprios instintos. Por que eu? Tal qual o personagem de Robert Duval, no filme “O Apóstolo”, quero entrar no primeiro rio que encontrar e, com uma pequena cuia, me auto-consagrar apóstolo, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ainda que essas três pessoas santas não fossem sequer convidadas para o ato.
Talvez, por uma necessidade de aceitação. A melhor forma de se tornar necessário é tendo o que doar, com o que contribuir. Principalmente em um mundo utilitário, como se tornou o nosso, quem estiver disposto a dar de si mesmo e, melhor ainda, daquilo que tem granjeado ao longo do tempo, com certeza corre o sério risco de ser aceito.
Em busca de aceitação, sou capaz de dizer sim, mesmo que todo o resto do meu corpo esteja gritando não. Para ouvir um pequeno elogio, sou capaz de me expor até o limite do ridículo, se necessário. Salvador do mundo é apreciado por todos. Uma unanimidade. Que seria de Gottan City sem Batman e Robin? E do planeta diário sem o Super Homem? Até o ranzinza do JJ Jamenson, apesar da ira contra o Homem Aranha concorda que a cidade precisa de um super herói.
Mas, quão bom seria se eu fosse apenas eu mesmo. Suportasse me olhar no espelho, contentando-me com a visão. Esse eu autêntico, jamais escondido sob qualquer manto, seja de pureza ou de perversão. Esse eu menino, medroso, inseguro que, apesar de mim, ainda consegue se perceber puro.
Quão bom seria se eu não acreditasse nesse estereótipo criado sobre o meu chassi, que me exige determinado comportamento, ou alguma ação adequada ao meu papel social. Que bom seria ser somente aquilo que posso perceber na solidão da busca que inicio para dentro de mim mesmo.
Por que ser salvador do mundo, se não consigo salvar a mim mesmo? Salvador do meu mundo, talvez? O grande libertador da minha alma sensual e perigosa? A grossa mão que me agarra pelo braço, no meio das ondas famintas da existência, lançando-me como uma folha outonal em direção à areia? Que bom se eu conseguisse ser, tão somente, o salvador do meu mundo...
Salvador de mim mesmo.
No Banco da Praia
Allison da Silva Ambrósio
Eu estava exausto. Após doze quilômetros de corrida pelo calçadão, até mesmo as poucas passadas pareciam eternas. Era o momento de me alongar. As dores seriam menores se assim o fizesse. Ela estava sentada no banco a uns poucos metros de meu lugar de exercícios. Nada no rosto que me dissesse sobre dor ou prazer. Apenas olhava.
Bem vestida, cinqüenta e cinco anos aproximadamente. Cabelos bem arrumados, ainda que eriçados pelo vento sul. Revezava o olhar entre a placidez do mar floripano, sempre calmo em função das montanhas que o subjugam e eu. Daí meu desconforto. Fingi não notar, enquanto flexionava o antebraço esquerdo, para não precisar olhar para ela.
Às vezes me ocorrem tais esquisitices. Parece que me intimido com pessoas absolutamente inofensivas. É assim quando uma criança pequena resolve me encarar. Talvez, em função de sua pureza me sinta desconfortável. Ou então por causa da curiosidade excessiva dos pequenos. Dizem que os idosos vivem a segunda infância. Quem sabe? Aquela mulher no banco estava uma séria candidata a bebê.
Allison da Silva Ambrósio
Eu estava exausto. Após doze quilômetros de corrida pelo calçadão, até mesmo as poucas passadas pareciam eternas. Era o momento de me alongar. As dores seriam menores se assim o fizesse. Ela estava sentada no banco a uns poucos metros de meu lugar de exercícios. Nada no rosto que me dissesse sobre dor ou prazer. Apenas olhava.
Bem vestida, cinqüenta e cinco anos aproximadamente. Cabelos bem arrumados, ainda que eriçados pelo vento sul. Revezava o olhar entre a placidez do mar floripano, sempre calmo em função das montanhas que o subjugam e eu. Daí meu desconforto. Fingi não notar, enquanto flexionava o antebraço esquerdo, para não precisar olhar para ela.
Às vezes me ocorrem tais esquisitices. Parece que me intimido com pessoas absolutamente inofensivas. É assim quando uma criança pequena resolve me encarar. Talvez, em função de sua pureza me sinta desconfortável. Ou então por causa da curiosidade excessiva dos pequenos. Dizem que os idosos vivem a segunda infância. Quem sabe? Aquela mulher no banco estava uma séria candidata a bebê.
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