segunda-feira, 31 de março de 2008

A ANSIEDADE DE CADA DIA
Allison da Silva Ambrósio

“Não andeis ansiosos por coisa alguma; antes em tudo sejam os vossos pedidos conhecidos diante de Deus pela oração e súplica com ações de graças; e a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus”. Filipenses 4:6, 7


Certo homem foi ao médico, sentindo muitas dores por todo o corpo. Sendo solicitado que apontasse os lugares em que pareciam mais fortes, com o indicador ele passou a mostrar e a dizer:

- Ai! Dói aqui e, ai, dói aqui também doutor! Ai! Aqui também dói!

Ao final da consulta ele saiu com o dedo indicador engessado!

Fica difícil tomar remédio para dores que não sabemos definir. É muito ruim quando sentimos que há algo errado em nosso interior, embora não saibamos corretamente o que é. É como o bebê recém nascido que não sabe se exprimir. Apenas chorar. De madrugada!

Gosto desse versículo acima, porque ele joga alguma luz sobre a questão da ansiedade, grande incógnita para a raça humana. Logo no início já propõe que em tudo devem ser conhecidos os nossos pedidos diante de Deus. Algo como se aproximar de alguém para compartilhar um problema, tendo pleno conhecimento da situação.

Interessante observar que, apesar de conhecer o nosso coração, Deus espera que compartilhemos o que sentimos, reflitamos sobre o que realmente queremos, ou o que prioriza a lista das nossas angústias. Ouvi algo realmente importante essa semana sobre a Bíblia. O objetivo da Palavra não é revelar Deus a nós. Justamente o contrário. Revelar-nos a nós mesmos e, no processo, encontrarmos Deus.

Quando Paulo afirma que em tudo devem ser conhecidas diante de Deus as nossas petições, ele cria um ambiente não para Deus, e sim para nós, para encararmos a realidade a nosso próprio respeito - aquilo que realmente importa ou incomoda ou nossos corações. A cura da ansiedade é a confrontação honesta do que passa pelas nossas mentes, na medida em que confessamos sentir.

Quando Sigmund Freud lançou as primeiras luzes da psicanálise, não foi à toa que o processo terapêutico ficou conhecido como “talking cure”, ou seja, a cura por falar. Quando você fala, quando você desabafa, quando você excreta da alma aquilo que lhe incomoda, ocorre o inicio da cura, do alívio que você precisa para prosseguir. A oração, de fato, nos conecta com Deus. Mas, diferentemente das nossas deduções arrogantes, não é para que Deus se agrade de nós, e sim, para que nós nos percebamos Nele. Saber que ele está lá, perto da nossa voz, ouvindo sobre aquilo que ele já conhece a nosso respeito, traz alivio à nossa alma.

Coisa alguma e em tudo – A abrangência dos termos nos dá a dimensão do envolvimento que Deus disponibiliza para cada um de nós. Nada do que nos aflige deve ser esquecido. Nenhuma ansiedade deve escapar de ser confrontada, trabalhada, confessada aos pés de Jesus. Se afligir o suficiente para roubar um minuto sequer do nosso tempo, pode e deve ser compartilhada com Deus.

E a paz de Deus – O grande objetivo de Paulo não era o de desviar nossa atenção da situação presente. Pelo contrário, ele queria que a enfrentássemos, porém, de uma maneira mais consciente, mais clara e, consequentemente, mais objetiva. Sei exatamente o que está acontecendo e conto com todas as minhas possibilidades para solucionar.

Penso que aí é que ocorrem os equívocos na interpretação do texto sagrado. Em nenhum momento o apóstolo está afirmando a solução imediata, ou sequer a solução definitiva de um problema. Não há regalias para a vida dos crentes sobre a terra. Não nos tornamos imunes às correntes de águas que arrastam carros no Rio de Janeiro, aos ônibus incendiados em São Paulo, aos diques arrebentados, cheios de lama no interior de Minas Gerais ou a onda de assassinatos em Vitória do Espírito Santo. O que os cristãos parecem querer na verdade é um salvo conduto pela vida, onde as dores são expulsas do nosso cenário e nunca mais saibamos o que é provação. Um conto de fadas parece ser mais próximo dessa realidade impossível que muitas vezes buscamos com a nossa espiritualidade.

Quero amar a Deus sem tirar os pés do chão da minha própria história, porque senão, vou acabar criando um mundo imaginário, de faz-de-conta, sem qualquer conexão com a realidade em que vivo. Deus torna-se assim um objeto de culto dissociado do verdadeiro eu que, por causa desse distanciamento, irá embrutecendo lentamente, até que Ele não signifique mais nada para mim.

Pela oração e súplica – O canal de comunicação fica definido: oração e súplica. Uma vez que são apresentados dessa maneira, fica clara a diferenciação entre termos. Orar é falar, contar, estabelecer contato. Não significa necessariamente pedir, reivindicar, reclamar ou, muito menos ainda, exigir qualquer coisa. Significa comunicar, estabelecer através da oratória, cientificar. Poderia trabalhar, dentro dessa linha de raciocínio, a oração como um boletim atualizado sobre o estado do paciente que se dirige a Deus.

A súplica surge a partir disso. Depois de relatar, conhecer com clareza o que me aflige tenho subsídios para suplicar o favor do Senhor para tal situação. Tenho a impressão de que acontece mais ou menos como nós nos relacionamos com nossos filhos. Eles se aproximam e choram, às vezes até bem mais do que falam, e nosso papel é o de ajudá-los a coordenar as idéias, de modo a que eles mesmos consigam compreender realmente o que os está incomodando.

Geralmente, a simples constatação clara do problema já traz em seu bojo a solução. Quando as coisas ainda estão emaranhadas, confusas, sem começo e sem final, temos a tendência de acreditar que os nossos problemas são muito maiores do que de fato são. Percebe-los corretamente é, sem dúvida alguma, o começo da solução.

E A PAZ DE DEUS – Junto ao alívio produzido pela descoberta do cerne da nossa angústia, vem também a constatação do lugar onde isso se deu. Aos pés do Senhor, cuja presença suave nos traz paz. Começo a entender que estar ao lado do Pai faz toda a diferença. “Tenho-vos dito essas coisas”, disse Jesus, “para que em mim tenhais paz”.

QUE EXCEDE A TODO ENTENDIMENTO – Talvez seja essa a razão porque tal paz excede a nossa capacidade de compreensão. É difícil compreender alguém que, em meio a grandes dificuldades e lutas, consegue manter um espírito sereno, um controle tranqüilo sobre as coisas. Extrapola a nossa compreensão tal comportamento.

GUARDARÁ OS VOSSOS CORAÇÕES – O rei Salomão nos ensina que é do coração que procedem as saídas da vida. Quando Paulo nos diz que a paz de Deus guardará os nossos corações, ele nos estimula a pensar nas atitudes refletidas, nos passos estudados sem precipitação e, consequentemente, nas escolhas feitas de uma forma madura. É difícil para alguém que tem o controle da situação, agir de forma desorientada, precipitada. Só dos mais alterados, nervosos e assustados é que esperamos tal atitude.

E OS VOSSOS SENTIMENTOS – Tão importante quanto fazer alguma coisa é por que fazer. Qual a real motivação que me faz escolher isto ou aquilo? Quais as intenções do meu coração quando optei por este caminho em detrimento daquele? Se eu de fato estiver em paz, não me pautarei por sentimentos revanchistas e vingativos. Não me deixarei adoecer por atitudes menores que o padrão adotado por mim. Meus sentimentos serão verdadeiros, autênticos e destituídos de rancor. Por quê?

EM CRISTO JESUS – Porque todas essas manifestações de paz em meu interior fluirão a partir de Cristo. Não há sombra em Jesus. Não é possível me aninhar em seu abraço de paz e tentar responder ao mundo com rancor. O caráter de Cristo é o grande alvo da minha caminhada de fé. É por isso que terei bem guardados o meu coração e os meus sentimentos nele.

Onde está aquela ansiedade que estava aqui?

domingo, 30 de março de 2008

Tributo a uma amiga!

As primeiras vezes de qualquer coisa costumam ser marcantes. O primeiro dentinho, os primeiros passos, as primeiras palavras, a primeira infância. Depois vem o primeiro dia de aula, as primeiras letras, as primeiras frases e, no meu caso, os primeiros cascudos das primeiras confusões em que me metia na escola.

Lembro-me da primeira suspensão que recebi, por subir com tênis e tudo na carteira, justamente quando queria pedir silêncio aos companheiros. Líder em crescimento, logo percebi o preço de tamanha ousadia. Foi no mesmo colégio em que resolvi ter a primeira briga por uma garota, que iria passar bem no local que escolhi para o embate. Tive que enrolar um pouco meu oponente, que não estava entendendo nada daquilo tudo. Só topou a briga porque era meu amigo e não queria me contrariar!

Quando a Vania chegou, me preparei para dar um soco no meu "ini"amigo que, ao perceber que eu não estava brincando, se esquivou rapidamente da direção do meu braço. Perdi o equilíbrio no cascalho sob o qual estávamos e caí vergonhosamente, a tempo ainda de perceber no canto dos lábios da garota um risinho constrangido.

A primeira vez que convidei uma garota para dançar foi no Rio de Janeiro. Festa no Morro da Pavuna, meus primos todos estavam lá. Era uma loirinha de uns seis ou sete anos. Eu tinha nove. Achei que sendo mais velho imporia assim uma reverência maior. A musica era do Michael Jackson: "Music and Me". Eu suava em bicas, sem qualquer controle nos pés que pareciam de um retardado. Pisei tanto nos pés da garota, que ela nem quis esperar o final da canção. Era a música ou o seu pé. Preferiu o pé.

Assim, as primeiras coisas vão se tornando significativas, talvez por representar avanço, crescimento, descoberta, aprendizado. Quando dirigi um carro a primeira vez, o primeiro verso, os primeiros acordes, o primeiro choro de amor, o primeiro beijo.

A primeira perda significativa veio de meu irmão, Alfeuzinho, vítima de sua segunda trombose. Morreu um dia antes do dia das mães, em Maio de Setenta e Oito. Sei disso porque o sepultamento seria no dia seguinte, dia da minha primeira apresentação em um teatro, com o grupo da escola de música de Brasília. Quando disse a todos que meu irmão iria ser sepultado naquela tarde, foi um choro geral e uma apresentação primorosa na quela manhã.

Mas, o que destampou essa caixa de lembranças das primeiras vezes de qualquer coisa? É que hoje eu comi o último pedaço do chocolate que me veio pelo correio, poucos dias atrás. Minha amiga Jeusa enviou pelo correio um caixa para mim, cheia dos mais variados tipos de chocolate. O que mais me encantou foi a delicadeza do presente, cheio de pequeniníssimos detalhes que, com certeza, demandaram um cuidado tremendo para chegarem inteiros em Floripa.

Foi a primeira vez que me senti assim tão especial, a ponto de alguém resolver fazer um mimo desta magnitude para mim. Foi especial, marcante, carinhoso e muito superior ao carinho que lhe fiz dias antes, cantando uma de minhas canções que lhe tocam o coração. Resolvi registrar, obedecendo a um desejo recente do meu coração, de não deixar passar despercebido qualquer demonstração de carinho que me for endereçado.

Obrigado, querida amida, por adoçar um pouco a minha vida e da minha família!

Com muito carinho e afeto para você!

PARA ENCERRAR O MÊS

TÂNIA LÚCIA
Allison da Silva Ambrósio

Pedalando na Avenida Beira Mar Norte, na linda e ensolarada manhã que se fez hoje na ilha, já estava retornando ao ponto de partida, quando observei do meu lado esquerdo uma exposição de veículos antigos. Havia vários Dodges, Mavericks, Dkws e fuscas, muitos deles. Dentre as muitas sensações que tive ao encontrar esses carros rigorosamente completos, como que desafiando o tempo, pude sentir minha ansiedade aumentando, depois de perceber que já havia andado na maioria deles!

Ainda bem que foi justamente quando estava me exercitando com a bicicleta, pois de outra forma eu teria uma sensação de dores por todo o corpo. Vi uma Rural 1964 que tinha as mesmas cores que um carro similar, dirigido por meu pai em certa ocasião, quando nos arrumamos à meia-noite e saímos em direção a estrada de Santos. Recém inaugurada, inclusive! Um Galaxie 500, também exposto ali me lembrou uma dessas noites preciosas quando, ao pegar uma boa estrada e sentir o desejo de pisar mais fundo, meu pai me “incumbiu” de acompanhar o avanço do velocímetro, enquanto ele testava os limites do veículo.

Seria a mais absoluta hipocrisia se eu quisesse aqui “pagar” uma lição de moral no velho, pois não me lembro de ter ficado tão excitado com uma infração como fiquei naquela noite. Aliás, nunca soube direito qual era a função de meu pai na Ford-Willis onde trabalhava. Só me lembro que de tempos em tempos ele aparecia em casa com um carro novo, que era devolvido no dia seguinte.

Mas, dentre todas essas lembranças que pipocavam em minha mente, indo e voltando, unindo meu passado ao meu presente e trazendo-me de presente novas lembranças, parei de repente, como que hipnotizado por ela, a grande dama da minha exposição – Tânia Lúcia.

Primeiro carro que pude chamar de meu, Tânia Lúcia era um Volkswagen TL (daí o apelido), bege, frente alta e bancos em forma de gomos, muito luxuosos para aquele tempo. Meu pai a havia comprado num daqueles negócios mirabolantes que só ele conseguia fazer. Sem nenhum problema aparente, tanto na máquina quanto na lataria, Tânia Lúcia logo passou a fazer parte do meu mundo, na melhor forma possível.

Veio com um toca-fitas que não tinha rádio, único exemplar que conheci em toda minha vida. Fui à discoteca 2001, no Conjunto CONIC, última loja antes de se chegar ao Setor Comercial Sul. Comprei as fitas dos grandes maestros: Paul Mauriat, Glenn Miller, Ray Connif, aproveitando alguns títulos que precisei pagar por ali, como funcionário da Check Mate Informática.

Morávamos em Valparaízo de Goiás, a cinqüenta quilômetros de Luziânia, na direção de Goiás e quarenta e dois na direção de Brasília. Portanto, apenas para ir e voltar do trabalho eu dirigia oitenta e quatro quilômetros todos os dias. Meu pai, com uma resistência igual à minha hoje quando o assunto é trajeto longo, dormia logo após eu ajustar a frente da Tânia Lúcia em direção à Estrada-Parque Taguatinga, roteiro obrigatório para voltarmos para casa.

Uns quilômetros mais adiante era o momento de eu pegar uma das minhas fitas cassetes. Éramos nós três – eu, Tânia Lúcia e o Glenn, Ray ou Paul, agora mais íntimos do que nunca. Aos primeiros acordes da orquestra e todo o cansaço do dia desaparecia como mágica. Tânia, solidária com meu sonho diminuía até o ronco de seu motor de mil e seiscentas cilindradas. Mal sabia ela que aquilo também era música aos meus ouvidos. Em um novo momento encantado, os lindos eucaliptos que ladeavam a estrada, perfumando a viagem de todos desapareciam. Via-me dirigindo nas auto-estradas européias, vendo castelos centenários onde havia somente árvores, pouco tempo antes.

Tânia Lúcia também sofrera uma revolução estética impressionante. Não era mais um Volkswagen mil, novecentos e setenta e três. Havia se transformado em um potente Porsche Carrera conversível, o deus sobre rodas daquele tempo. Glenn Miller continuava a jogar suas harmonias perfumadas de eucalipto, enquanto eu cortava o negrume da estrada em espírito e em verdade. Em espírito, nas estradas suíças, embevecido com os castelos que nunca visitei. Em verdade, na estrada-parque em direção ao Valparaízo de Goiás.

E meu pai? Meu pai, em meu devaneio semi-juvenil tinha se tornado em uma loura estonteante, de cabelos esvoaçantes e medidas generosas. Afinal, a Jackie ainda não existia em minha vida, além de nenhum Play-Boy sair por aí passeando com papai. Que outra atribuição poderia lhe dar em meu sonho? Porém, por questões mais que óbvias, nunca me senti a ponto de estacionar meu Porsche ao lado de um castelo e dar uns beijos na minha loura!

quarta-feira, 19 de março de 2008

DUÍLIA

Essa noite eu assisti a um filme rodado nos anos sessentas, baseado em um dos contos mais bonitos que já li: “Viajando nos Seios de Duília”. Acho que uma das coisas que tornou o texto mais significativo para mim foi estar com o Ricardo Gondim naquela tarde, num dos raros momentos de descontração que tivemos em Fortaleza, numa livraria do Iguatemi.

O texto se encontra na coleção “Os Cem Melhores Contos do Século”, ou algo assim. Fala de um homem, Sr. José Maria que, ao que tudo indica, estacionou todas as suas emoções em um singular momento de sua adolescência, quando foi procurar a garota por quem estava apaixonado havia muito tempo, contudo sem coragem de falar.

Seu pai recebeu uma nomeação do governo federal no Rio de Janeiro, que o chamava para assumir o trabalho em apenas dois dias. Portanto, Zequinha precisava encontrar Duília, seu amor de juventude para dar as duas notícias – a partida iminente daquele vilarejo onde moravam e a paixão que sentia. Para sua surpresa, ela também lhe confessou ser apaixonada por ele desde muito tempo, o que o sobressaltou em razão de só saber dessas coisas no tempo de ir embora.

Quarenta anos depois, o agora Sr.José Maria está aposentado, morando no Rio de Janeiro e muito infeliz. Descobriu que havia posto todas as suas energias no trabalho e não construiu família, amizades ou relacionamentos duradouros. Por causa de uma conversa informal em um velório, José Maria chega à conclusão de que se voltar a Pouso Triste, a cidadela de onde saiu e onde deixou o seu grande amor, provavelmente reencontraria a felicidade.

Desde a viagem em si até a chegada, não se faz necessário dizer que foi uma grande decepção o seu retorno. Apesar de nada ter mudado esteticamente falando – a cidadezinha ficava no interior mais remoto do Estado de Minas Gerais – o José Maria havia mudado. Lugares que pareciam enormes, agora para ele eram atravessados em poucas passadas. Rios caudalosos para um menino, não passavam de riachos frágeis e inofensivos para o homem que voltou.

Quando se aproximou de Duília, agora uma senhora de mais de sessenta anos de idade, viúva, três filhos, ao revelar finalmente quem era, fez com que a mulher se angustiasse e perguntasse decepcionada: “Por que você fez isso? Por que voltar no tempo, atrás de um passado que não existe mais, de uma pessoa que nunca mais será a mesma?”. Quando se deu conta dessa realidade, José Maria saiu da sala, caminhando como que sem rumo em direção à árvore onde deu seu primeiro e único beijo de amor.

O filme termina assim. Assim como a vida, que nem sempre segue um roteiro do Spielberg em seu final. Seca, fria e inexorável. “É a vida!”, multiplicam-se afirmações do tipo. Achei até melhor que nem o autor do conto e nem o roteirista do filme tivessem tentado dar um final plausível para o homem desesperado. Acho que seria a morte, mas, na idade em que se encontrava, talvez nem conseguisse voltar mais para o Rio de Janeiro.

Já voltei no tempo algumas vezes, revisitando lugares e reencontrando pessoas queridas. Em algumas delas chorei de emoção. Não sei se isto já um dispositivo de prevenção emocional da nossa própria mente, pressentindo a chegada da maturidade. Aí nos apegamos às curvas, alças e nós do passado, da nostalgia, como que querendo voltar no tempo, nem tanto pela experiência em si, mas para adiar a fila da partida eterna.

É quando os perfumes, os sabores, as cores e frases nos chegam com toque de eternidade. É quando nos encontramos a administrar medos jamais antes sentidos. E saímos correndo atrás das Duílias da nossa história. Ou dos Josés Marias, diriam as mulheres. E eles não estão mais lá. E as histórias não estão mais lá. Finalmente descobrimos que nós também não estamos mais.

quinta-feira, 13 de março de 2008

AUDÁCIA!

Todas as conquistas sublimes são mais ou menos prêmios de coragem. (...) O grito - audácia!- é um fiat lux. Para que o gênero humano marche sempre avante, é preciso que no horizonte, permanentemente, haja altivas lições de coragem. As temeridades deslumbram a história e constituem uma das grandes luzes do homem. A aurora, quando surge, é ousada. Tentar, desafiar, persistir, perseverar, ser fiel a si mesmo, agarrar o destino corpo a corpo, espantar a catástrofe pelo pouco medo que ela nos causa, afrontar às vezes o poder injusto, ou insultar a vitória ébria, resistir, perseverar; eis o exemplo necessário aos povos, eis a luz que os eletriza. O mesmo clarão formidável passa do facho de Prometeu à imprecação de Cambronne. (trecho de “Os Miseráveis”, de Victor Hugo – Ed. Cosac&Naify, livro II, pg. 33)

quarta-feira, 12 de março de 2008

O GRILO

Aprendi ainda menino essa poesia do Gioia Júnior. Até hoje me enternece. Quero dividi-la com você!

Numa noite clara, de lua redonda
Como um queijo branco no prato do céu
Do meio do mato uma voz ouvi
Que falava sempre:
Cri, cri, cri,cri,cri...

Estava sozinho, sem nenhum amigo
Com quem conversasse, então decidi:
Com o grilo alegre vou travar conversa
Ei grilo, não temas que eu não sou de briga
Creste no que eu disse?
E o grilo do escuro respondeu na hora, como se entendesse:
Cri, cri, cri, cri...

Fiquei muito alegre!
Ele me entendia e me respondia com satisfação
Pus-me a contar fatos que o deixaram quieto
Prestando atenção

Uma vez, amigo, veio ao mundo um homem
Muito meigo e puro, libertando a todos, saciando pobres
Homem tão bondoso como igual não vi
Creste no que eu disse?
Respondeu-me o grilo como se entendesse:
Cri, cri, cri, cri...

Pois o tal profeta (ele era profeta) dedicado e amigo
Recebeu dos homens o pior castigo que já conheci
Numa cruz pesada foi crucificado
Suas mãos sangraram rasgadas, feridas
Sua fronte clara foi lavada em sangue
Padeceu torturas como nunca vi
Creste no que eu disse?
Respondeu-me o grilo como se entendesse:
Cri... cri... cri... cri...

Mas, um dia, um belo dia de domingo
Esse homem puro que nenhum pecado no mundo provou
Rompeu as barreiras da morte gelada
E ressuscitou!
Seu corpo na pedra do frio sepulcro
Ninguém mais achou
Bom... Já se faz tarde. Vou dormir amigo
Mas... Ó? Companheiro? Tu creste de fato no que eu disse aqui?
Respondeu-me o grilo, como se entendesse:
CRI! CRI! CRI! CRI! CRI!
FELIZ ANIVERSÁRIO, PAI!
Allison da Silva Ambrósio

“A palavra foi dada ao homem para esconder o que pensa” Charles Maurice T. Perigord, Príncipe de Benevento (1754-1838)

Não sei ao certo o que eu esperava ao ligar. Desde uma semana antes já pensava nele insistentemente. De repente, a proximidade de seu aniversário me deixou inquieto e meio ansioso para lhe falar alguma coisa. Qualquer coisa, desde que conversássemos novamente. Passei o dia esperando um sinal interior que me liberaria para fazer o contato.

Liguei para o meu irmão mais novo, no Rio de Janeiro, com o intuito de conseguir algum número telefônico do meu pai, já que ele mudava muito e não tínhamos um contato freqüente. Aliás, não tínhamos contato algum. Essa também era uma das minhas queixas em relação a ele. Se eu não ligasse de vez em nunca, seria uma espécie de órfão com pai vivo.

A impressão que me vem, sempre que penso nisso é que ele desenvolveu um mecanismo interior que o libera de qualquer responsabilidade emocional com sua primeira família. Outras responsabilidades, tais como econômica, administrativa ou financeira há muito não esperamos dele. Se não existia tal compromisso enquanto dentro de casa, imagine fora e com outros filhos para sustentar?

Liguei para ele e quem atendeu foi o meu meio irmão, um garoto simpático e inteligente, que logo me reconheceu na ligação. Contou que todos haviam saído para um jantar de comemoração pelo aniversário do velho. Afinal, setenta e sete anos de idade merecem ser bem comemorados!

A chamá-lo para me atender, pude escutá-lo na extensão, se aproximando e falando alto, como que surpreso e feliz por eu ter ligado. “É o Allison? Não acredito! É o Allison mesmo?”. Em outros tempos eu cairia facilmente nessas suas introduções. Descobri com o tempo que isso faz parte de um formidável arsenal que ele construiu durante anos, com o propósito de escapar de uma situação constrangedora como, por exemplo, não ter uma explicação plausível para o seu completo silêncio em relação a mim.

A festa ao me atender é tão dissonante com a distância que tem havido entre nós, a ponto de me intrigar. Se ele fica mesmo tão feliz assim com minha ligação, porque não me ligou pelo menos uma vez nesses últimos dois anos? Aliás, foi até mesmo um alívio para o meu coração, quando me lembrei que não havia dois anos de silêncio. Numa das minhas carências do ano passado, liguei provavelmente no início do semestre, quando as minhas angústias se agravam mais. O assunto de hoje na ligação parecia o mesmo daquela ocasião, gêmeo uni vitelino de todos os assuntos de qualquer tempo.

Suportando a saraivada de perguntas iniciais que, como disse anteriormente, tem a propriedade de manter um papo por uns minutos a mais, depois que o felicitei pelo aniversário, desejando de coração que tivesse saúde para viver ainda por muito tempo, aquela ligação que tinha vida tão curta quanto as anteriores acabou por me surpreender. Houve um elemento novo. Um choro insistente de bebê ao fundo.

Antes que eu dissesse alguma coisa sobre isso, meu pai foi logo explicando que o “neném” estava chorando muito, comentário que me pareceu uma senha delicada para se encerrar nosso assunto. Se propositalmente ou não, me ouvi perguntando sobre o tal neném, não sei se para tentar estender mais o pouco contato ou simplesmente para satisfazer uma curiosidade repentina e urgente que surgiu em meu horizonte.

Ele me respondeu como que admirado de eu não saber ainda. Era o Daniel, seu terceiro filho do novo casamento. Como um flash acionado em algum ponto do salão, lembrei-me de alguma coisa que o meu irmão mais velho me havia falado nesse sentido. Disse-me que o pai estava adotando uma criança. Na ocasião achei tão improvável quanto banir a corrupção no Congresso através de Medida Provisória. Depois de onze filhos com minha mãe e mais dois com sua nova mulher, o que queria ele ao assumir mais um menino?

Um misto de surpresa aliada à revolta, indignação ou crítica tomou meu coração. Fiquei de tal forma que me ouvi perguntando segunda vez: “Como assim, mais um filho?”. Sua reação também foi por puro reflexo: “Ele iria morrer se a gente não acolhesse!”. “Mas, e a gente?”, pensei, “por que não nos acolher também? Por que, ao invés de adotar mais um, não cuida de alguns dos que já são seus?”, pensei outra vez. “Se pode investir em uma criança dos outros, por que não investir numa das que você mesmo pôs no mundo?”, pensei miseravelmente outra vez.

Um hiato, rápido e eterno. Talvez, os segundos que perdi em tantas perguntas interiores que, qual magma vulcânico agitava-se descontrolado no meu coração. Quis ser cruel e vomitar minha cólera repentina. Quis ser infantil, qual menino que deseja o mesmo carrinho que assistiu ao outro ganhar. Quis ser um moralista, que constrange a partir do próprio exemplo, mas, ao lembrar de mim mesmo e do esforço que faço para melhorar, achei melhor não correr o risco de ser um demagogo.

“Só liguei mesmo para saber se você está bem e com saúde. Feliz aniversário, pai”, falei metalicamente. “Obrigado meu filho”, ele me respondeu formalmente. Devo ter mandado um beijo ou coisa parecida, ao que ele provavelmente tenha devolvido. Desligamos. Minha filha surgiu no canto da sala, vindo em minha direção da forma que mais gosta ultimamente – fazendo estrelinhas. Contive o desejo de chorar, sem saber exatamente por quê. Ela veio e saltou perigosamente sobre mim, com o risco de se machucar. Dessa vez não briguei. Consegui segurá-la, apertando-a contra o meu peito sobressaltado.

Será que foi isso? Será que saltei também?